Ansiosa por partilhar a sua vivência, Ana Gomes, uma enfermeira de 22 anos, oriunda de Ovar, irá desenhar a cidade berço da Língua Portuguesa e satisfazer as dúvidas daqueles que colocam o Instituto Politécnico da Guarda (IPG) na sua lista de opções. Apesar de carregar uma mala de receios, esta atual profissional de saúde chegou à cidade dos 5 F’s há 4 anos, onde ingressou na escola Superior de Enfermagem da Guarda, tendo este ano terminado o seu percurso académico, percurso este que aponta como tendo sido o representante dos melhores anos da sua vida.

O IPG integra a lista de instituições do ensino superior que tem vindo a aumentar o número de vagas, havendo um acréscimo de 41% de colocados na primeira fase relativamente ao ano anterior, acabando por esgotar as vagas na Escola de Saúde na segunda fase.

O alojamento é um dos maiores problemas na vida de um estudante universitário. Que conselhos dás a quem está à procura do local ideal e a um bom preço?

Numa perspetiva financeira, a Guarda é um bom sítio para viver quer para estudantes quer para trabalhadores devido ao seu baixo custo de vida aliado a um mundo mais rural. Só para terem uma ideia, um quarto de um estudante na Guarda ronda os 100-150 euros.

Antes da pandemia, quando era divulgada a lista de colocações, os trajados faziam um acolhimento aos novos estudantes, dando conselhos e também contactos de casas que poderiam visitar. Como é uma cidade pouco desenvolvida, não há grande informação sobre casas disponíveis.

O Instituto Politécnico da Guarda está dividido em duas partes completamente diferentes. Numa encontramos a Escola Superior de Saúde e na outra a Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto, a de Tecnologia e Gestão e a de Turismo e Hotelaria.

Se as pessoas forem para o polo onde se encontra a Escola de Saúde, deverão procurar alojamento mais no centro da cidade. Quanto ao outro polo, não conheço tão bem as ofertas.

Além disto, existem também residências para estudantes, divididas por géneros.

Como classificas a rede de transportes da cidade?

A rede de transportes não é de todo satisfatória, além de que há muito pouca oferta.  A partir das 22:00h não há forma das pessoas recorrerem a transportes públicos. Não há Uber, Bolt, táxi… não há nada! É tudo muito redutor. No entanto não há necessidade de haver uma rede de transportes maximizada ou melhorada porque é tudo muito perto e concentrado. Ainda assim, não está de todo como deveria estar nem como noutras cidades do país.

Na Guarda, os transportes mais utilizados são o autocarro e o táxi, mas também temos o comboio. Um estudante que venha de outra zona do país provavelmente irá deslocar-se para a Guarda de autocarro, porque o comboio não fica, de todo, localizado na zona do IPG, contrariamente ao autocarro.

Quais são os melhores spots boémios, de convívio e de estudo, na Guarda?

imensos spots de convívio. Os bares estão todos muito perto uns dos outros, o que facilita.  Saímos de um e entramos noutro (risos). E depois, pontualmente, os estudantes podem combinar entre si e ir estudar para um café ou para casa de um amigo. Não é comum existirem grandes locais de estudo na cidade, o que é uma pena.

À volta da Sé da Guarda temos todos os bares e restaurantes. À partida, será a zona escolhida pelos estudantes para sair. Também é muito conhecido o Alameda, um restaurante onde a maior parte dos jantares são realizados.  Aqui existe um shot especial que eu aconselho a muito poucos provarem porque não é nada bom (risos). Já é considerado o “shot do Alameda”.

Num restaurante médio, o preço de uma refeição completa é entre os 7 e os 10 euros, raramente ultrapassando esses valores.

Em termos de estudo, como já disse, não há grandes sítios. Temos apenas a biblioteca municipal, que não é usada com grande frequência.

Na Guarda, podemos encontrar alguns serviços muito perto uns dos outros como é o caso das farmácias, mas o mesmo já não acontece com os supermercados. Temos uma espécie de shopping que não tem muitas lojas. Contudo, temos um supermercado, o “Pão de Açúcar”, onde os produtos são muito mais caros do que nas grandes superfícies, o que não é muito benéfico dado que ainda por cima é o mais perto para os estudantes. Além deste supermercado, existem os outros comuns ao resto do país, mas ficam muito longe e precisamos de uma forma para nos deslocarmos para os mesmos. A minha vantagem foi ter amigos com carro, mas, para quem não tem, torna-se muito mais complicado fazer compras.

Quanto ao custo de vida na Guarda, este é de cerca de 300 euros no máximo, isto sem contar com o valor das propinas.

Quais são as tradições académicas típicas da região?

A minha experiência foi ótima. Vivi a Praxe intensamente, tendo alcançado a posição de órgão máximo no meu último ano. Não conhecia ninguém na Guarda e a Praxe foi o motor para criar laços que ainda vinculam nos dias de hoje na minha vida profissional. No IPG existem duas praxes: a de Saúde (a que integrei) e outra que também é bem referenciada. Para aqueles vinculados à Praxe, é tradição o “Batismo” dos Caloiros, o Enterro, uma Serenata no final do ano e, ainda, para os finalistas, uma missa celebrada junto das suas famílias e completada com um almoço enorme.

Na escola da saúde, a praxe é feita normalmente à quinta-feira, durante o dia, mas, esporadicamente, também a fazemos à quarta-feira. Normalmente não é suja, com exceção da primeira semana e certas cerimónias mais especiais. O resto do IPG faz sempre praxe à quarta-feira, embora esta seja noturna.

 Quais são as atividades extracurriculares que o IPG  e a cidade têm para oferecer?

O IPG tem uma coisa que eu considero fundamental e merecido de destaque: o apoio psicológico gratuito. Além disso, temos algumas parcerias com ginásios. O ginásio serve quer para uso pessoal quer institucional uma vez que há vários estudantes do curso de desporto a estagiar. Para além disso, há a opção dos voluntariados, cujas atividades são geralmente promovidas pela associação de estudantes. A título de exemplo, durante a quarentena, num ato de auxílio aos idosos que não tinham a possibilidade de sair de casa, traziam a lista de compras e depois voltavam com as compras feitas.

Quais são os principais pontos de atração da cidade?

A Sé da Catedral da Guarda e a Torre de Menagem são considerados os melhores pontos de atração da cidade. Numa tentativa de preservar e promover a cultura desta cidade delineada pelas suas ruas antigas sob a calçada portuguesa, existem alguns eventos como palestras e peças de teatro.

Como descreves o clima na cidade?

O clima é muito de extremos. No Inverno está um frio muito considerável, com as temperaturas a chegarem a graus negativos muito facilmente, e no Verão é “super quente”.

Durante o meu percurso académico, só vi neve na Guarda uma vez, o que causou um bloqueio total sobre a cidade. Não havia transportes e as pessoas não foram trabalhar, porque simplesmente não se conseguiam deslocar. Foi um nevão muito forte.

Conta-nos um mito sobre Guarda.

Foi me dito que a Guarda é um sítio de serranos que só bebem vinho tinto. Isso é mentira.  As pessoas que falam serrano são de facto uma minoria. Há muito mais para beber do que vinho tinto. Embora seja uma cidade estereotipada de rural, eu não o considero. Não é uma cidade muito desenvolvida, mas está em desenvolvimento.

De forma breve, consegues enumerar duas vantagens e duas desvantagens de estudar em nesta região?

Como a Guarda é um meio pequeno, é mais propício ao desenvolvimento de amizades entre estudantes, permitindo que conheçam mais pessoas. Tudo é muito próximo e não precisam de se deslocar muito. Além destas, temos o ar puro e todas as tradições que se têm mantido ao longo do tempo e que fazem da Guarda uma cidade com história.

Infelizmente, há um fraco desenvolvimento de supermercados próximo dos estudantes, os centros comerciais deveriam ser maiores, a rede de transportes é deficitária e a população é muito envelhecida por não haver muitos estudantes.

Para terminar, quando ouves a palavra Guarda, a que palavra associas?

Amor. Lá encontrei o amor, das melhores pessoas que conheço, dos melhores amigos que eu tenho, as situações mais difíceis que passei foram lá e recebi muito amor para ultrapassá-las. As pessoas estão todas para ti e apoiam-te sempre. A forma de nos movermos é o amor e eu senti isso ao longo dos anos que lá vivi. Obviamente que sinto saudade porque já saí e a nostalgia do tempo de estudante, mas, para mim, Guarda é AMOR.

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