Medicina na Universidade Católica Portuguesa. Formar para Exportar?

A deficiente capacidade do sistema português para absorver novos licenciados que deixou, no ano anterior, cerca de 600 estudantes sem vagas no Internato Médico não foi motivo suficiente para abrandar a ambição da Católica.

Portugal continua a sobreviver a este contexto pandémico com intermináveis listas de esperas para consultas de especialidade ou procedimentos cirúrgicos, enquanto muitos estudantes de Medicina não têm acesso à possibilidade de especialização

Face a estas necessidades notáveis, o Ministério do Ensino Superior decide quebrar o congelamento de 10 anos na oferta educativa em Medicina com o acréscimo de 15% nas vagas do presente concurso nacional relativamente à soma dos anos anteriores. A maioria das universidades manteve-se indiferente ao sucedido, exceto a Universidade dos Açores que expandiu a sua oferta em 6 lugares e a Universidade Católica Portuguesa com a sua grande novidade. 

Superando todas as expectativas, esta recebeu, na passada quarta-feira, luz verde para avançar com a tão desejada oferta educativa: o Mestrado Integrado em Medicina, lecionado em inglês, consagrando-se não só a primeira instituição não estatal a providenciar esta formação, como também a primeira a ministrá-la na língua inglesa com abertura global.  O curso arranca no próximo ano letivo com apenas 50 vagas, sendo refinado para o dobro no ano seguinte, caso seja aprovado.  

O diretor da faculdade de Medicina da Católica salienta que o currículo do curso será orientado sob uma «metodologia muito centrada no aluno, em que a aprendizagem é feita à base de resolução de problemas» distanciando-se da “educação passiva”. O mesmo reforçou que «a partir do primeiro ano já têm treino clínico e a partir do terceiro já têm contacto com doentes», tendo como parceiro o Hospital da Luz, em Lisboa.

Esta proposta destacada pela qualidade e excelência de formação da melhor universidade portuguesa, segundo os critérios da Times Higher Education, visa apelar não só ao público internacional, como aos nativos que procuram opções supranacionais para ingressar no curso, que outrora não teriam lugar na estreita oferta portuguesa. 

Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade, revela que o processo de admissão será «idêntico à das universidades públicas», com a nota dos alunos a ser um fator dominante aliado ao desempenho de uma entrevista que visa avaliar as “capacidades relacionais” com um peso de 15% na ponderação final. Outro requisito será o certificado de habilitações na língua inglesa. 

Embora não seja conhecido o valor das propinas, este está assombrado por elevados custos de implementação e manutenção do curso, sendo expectável um valor superior ao custo estatal que será suavizado pelos subsídios do Orçamento do Estado e suportado parcialmente, em alguns casos, pelas bolsas de mérito e sociais.

Esta estreia não se viu livre da polémica, vendo-se rodeada de alegações de “pressão política”, o que conduziu a um sério levantamento de questões relativas ao seu propósito e impacto quer no Ensino Superior quer na Saúde Pública e na Economia Portuguesa. No entanto, coloca-se a pergunta: haverá lugar em Portugal? 

Se, para aspirantes a médicos, poderá ser visto como uma oportunidade para dilatar  o acesso à formação, para os recém-licenciados poderá ser um obstáculo ainda maior à formação especializada. Não adianta continuar a abrir vagas na primeira metade, se não abrirem vagas na segunda, sobretudo quando aos que terminam cursos em Portugal se juntam ainda aqueles que se formaram no estrangeiro. Entre 2010 e 2014, foram 647 os portugueses que, depois de concluído o curso fora do país, pediram equivalência do diploma.

A deficiente capacidade do sistema português para absorver novos licenciados, que deixou, no ano anterior, cerca de 600 estudantes sem vagas no Internato Médico, não foi motivo suficiente para abrandar a ambição da Católica, evidenciando que a competência pós-graduada pertence ao Sistema Nacional de Saúde, à Ordem dos Médicos, e aos colégios da especialidade. 

Contudo, sem o equivalente acréscimo de vagas no Internato Médico, a falta de médicos no SNS, que excede os 3000, número apontado por Jorge Roque da Cunha, coordenador-geral do sindicato Independente dos Médicos, não será diluída e a emigração será a única solução para estes licenciados que se veem impossibilitados de prosseguir a Carreira Médica em Portugal. A realidade de formar para exportar prevalecerá, tonificando a ameaça aos cuidados de saúde à população portuguesa.

2020-09-08T17:33:10+01:00By |Atualidade|

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