Mind the Trash – Empreendedorismo Sustentável do agora e do futuro

A Catarina é CEO da loja Mind the Trash, uma das principais lojas sustentáveis em Portugal que vende produtos do dia-a-dia amigos do ambiente, tais como shampoo sólido, escovas de dentes, esponjas vegetais, entre outros.

Lemos que foi há cerca de cinco anos que a Catarina viveu em Londres e que isso teve um grande impacto na maneira como começou a ver mundo, qual foi o ponto de viragem na sua experiência que a fez despertar para a sustentabilidade?

Eu acho que sempre fui preocupada com a sustentabilidade. Eu lembro-me que quando andava na faculdade já questionava as embalagens, a quantidade de plástico que levava para casa e por isso, comecei logo aí a ir ao mercado local evitando as compras no supermercado. Em 2014 mudei-me para Londres, decidi que queria ter mais experiência a nível pessoal e profissional e por isso despedi-me do meu trabalho em arquitetura.

Em Londres deparei-me com o apocalipse do descartável e por isso foi o meu ponto de viragem. Estava numa cidade que vive muito de takeaway, eles têm muito o hábito de tomar as refeições fora e comer no caminho e descartam as embalagens. É um povo que come muito pouco em casa, então eu às 9h da manhã quando ia para o trabalho os caixotes do lixo já estavam completamente atulhados e já estava a passar para berma da estrada, o que era assustador para mim.

Lembro-me da primeira vez que fui ao supermercado estava mesmo tudo embalado em plástico. Eu queria laranjas, bananas, cebolas, cenouras e estava tudo embalado em plástico, o que me deu um nervosismo e me fez procurar alternativas.

 

Em 2017 criou a sua empresa juntamente com o seu companheiro, a Mind the Trash, qual foi o objetivo inicial na fundação da mesma?

A Mind the Trash inicialmente era uma conta de Instagram onde eu ia partilhando os meus hábitos do dia-a-dia, o que eu estava a alterar para inspirar outras pessoas.

E quando me mudei para Portugal não havia nada dos produtos que eu já estava a utilizar no meu dia-a-dia, e portanto, a loja online foi uma forma de eu trazer para Portugal os produtos que eu já estava a utilizar lá e era também uma forma de eu conseguir espalhar a mensagem de que sim, existem produtos alternativos ao plástico, produtos mais sustentáveis e duradouros, que podemos utilizar no nosso dia-a-dia. Por isso, não foi uma oportunidade de negócio, não foi porque está na moda, não foi nada disso.

O meu intuito, quando me mudei para Portugal era abrir o meu ateliê de Arquitetura e a loja online era simplesmente uma coisa à parte, que nunca iria ser conhecida, mas acabou por não ser assim, acabamos por ter uma grande projeção até porque fomos a primeira loja deste género a aparecer e quando digo isto, não é só pela introdução de produtos mais sustentáveis, é também o facto de que toda a gestão interna da empresa é muito mais sustentável.

Uma loja online que praticamente não produz lixo não é muito comum. Reaproveitamos muita coisa.

 

Quais são as principais preocupações que tem enquanto fundadora da empresa e quais as suas recomendações para a gestão sustentável?

Um dos principais desafios é ter uma loja que não se comece a desviar do seu princípio.

Nós, diariamente, recebemos emails de novos produtos no mercado e nós temos de ser muito críticos para não nos desviarmos do foco, porque muitas vezes apresentam-nos produtos, tudo bem que pode ser de madeira, ou materiais sustentáveis, mas é mais uma coisa que está a ser criada e outro objeto pode fazer aquele uso, portanto temos de ter uma análise crítica para continuarmos a ser minimalista e partilharmos aquilo que é somente necessário.

Outra questão é o facto de termos a constante preocupação de não criarmos muito lixo com o crescimento da empresa, o que não acaba por ser fácil. Por exemplo, nós reutilizamos muito papel, que nos chega de clientes e fornecedores, mas se os clientes deixarem de nos entregar papel e se deixarmos de receber papel dos fornecedores, eu vou ter de ir buscar a algum lado papel e muito provavelmente será papel novo que vou ter de comprar, e aqui é muito importante a comunidade, é muito importante que todos façam parte do projeto porque só assim conseguimos continuar a manter a reutilização do papel. Ou seja, o lixo dos outros, não é lixo para nós e podemos dar um novo uso, portanto estas são algumas das preocupações que nós temos.

Outra também é as boas condições de trabalho, queremos que as pessoas que trabalham connosco sejam bem pagas, gostem do que estão a fazer, que se sintam felizes no trabalho e todas as pessoas envolvidas no processo também sejam bem pagas.

Aqui, para dar um exemplo, quando nós lançamos os shampoos sólidos as pessoas dizem “ 9,45€? isso é muito caro” e nós temos de justificar que há a pessoa envolvida na fábrica, há os ingredientes de boa qualidade e orgânicos que estamos a introduzir e nada em preço tem a ver com preços de produtos sintéticos, há o valor da embalagem que também é produzido em Portugal, há o Infarmed que temos de pagar, há a responsável pelo produto que estuda o produto e garante que não há nenhum problema e que podemos colocar no mercado. Há aqui tanta coisa, que às vezes as pessoas nem se apercebem. Nós, dentro da empresa, tentamos ser o mais certinho possível, seguir esse caminho e não deixar fugir dele.

 

Em que é que alterou a sua vida e visão sobre o mundo neste momento de pandemia mundial?

A minha visão não mudou, o que eu acho é que a pandemia somos nós. Estou a adorar este tempo, eu vivo no Cais de Sodré, e desde que isto tudo começou, não há lixo na rua, consigo ouvir os passarinhos nos jardins, vejo flores que nunca vi nascerem porque como estavam sempre pessoas deitadas na relva a natureza nem conseguia criar flores.

Neste tempo de quarentena, o que posso ter apreendido é o facto de nós sermos uma pandemia e desrespeitarmos completamente o ambiente, e que era necessário uma pausa e que esta pausa deveria existir mais vezes durante o ano para darmos uma hipótese à natureza de se regenerar. Por exemplo, o Rio Tejo, onde costumo passear, até ficou mais transparente. Começa a notar-se muitas melhorias no ambiente.

 

Nesta crise que estamos a ultrapassar, as famílias viram-se obrigadas a mudar os seus padrões de consumo, pensa que isto possa ter um grande impacto no estilo de vida das pessoas não só agora como também no futuro?

Esta pergunta tem vários caminhos, há pessoas que começaram a ficar mais alerta pelas notícias, que os canais de Veneza ficaram mais limpos, a poluição no ar diminuiu, etc. Então essas pessoas interiorizaram que já estava tudo a ser demais, mas eu também tenho noção que há algumas que não querem saber, e há muitas pessoas hoje em dia que não acreditam nas alterações climáticas.

Logo no início da pandemia tivemos aquele consumo exagerado de muitos Portugueses nos supermercados, a comprar montes de enlatados e comida em excesso e milhares de rolos de papel higiénico, eu até hoje ainda estou para perceber o porquê do papel higiénico. Mas depois temos os nossos clientes, que se mantiveram fiéis aos seus pensamentos e à sua forma de vida, comprando a granel e apoiando o mercado local, comprando com moderação e de uma forma consciente.

Agora, sim, há mais pessoas a despertar para esta problemática e sim, alguma parte da população mudou alguns hábitos, portanto ficaram mais cientes que trazem demasiadas embalagens para casa, isto não só pelo facto de não haver recolha de reciclagem nas cidades, só nos ecopontos de rua, mas a recolha porta a porta deixou de ser feita, segundo um comunicado da Câmara Municipal de Lisboa, então as pessoas começaram a acumular mais lixo em casa, portanto começam a ficar alertas pela quantidade de lixo, que se produz. Porque não é algo que simplesmente podemos deitar fora e desaparece da nossa vista, é algo que começa a acumular em casa. Portanto, algumas pessoas mudam, outras não!

 

Visto que o aumento da dimensão da sua loja está diretamente relacionado com o aumento de pessoas preocupadas com causas ambientais, gostaríamos de saber se com esta crise sente que o padrão mudou, isto é, sente que o número de clientes continua a aumentar ou se, pelo contrário, as pessoas direcionam o seu dinheiro para outro tipo de produtos que poderão parecer, à partida, mais acessíveis?

Curiosamente, eu pensava que íamos ter um decréscimo de vendas, mas está a ser ao contrário e conseguimos controlar isso. Até pelo Instagram consigo ver que temos muitos novos seguidores, que eu nem sei de onde estão a vir. Nós não fazemos publicidade paga, não pagamos a Influencers, não fazemos nada dessas coisas.

Quem quer partilhar o nosso projeto, que o partilhe de coração, esse é o verdadeiro feedback e realmente os seguidores estão a surgir, portanto há uma maior pesquisa por parte das pessoas de tentar chegar a produtos sustentáveis. Por isso, felizmente, as vendas têm estado a aumentar.

 

O que se imagina a fazer daqui a 5 anos? Em que projetos?

Eu definitivamente vou continuar na Mind the Trash, acho que já não vou para arquitetura, apesar de ter muitas saudades, mas gosto mais do que estou a fazer na Mind the Trash e de saber que estamos a fazer a diferença. Eu deparo-me com muitas lojas em que consigo perceber que é mesmo só por dinheiro que trabalham porque depois há muita incoerência, e eu sei que estou a fazer isto de coração, portanto, eu sei que quero continuar a fazer o meu trabalho da forma mais justa e transparente possível como diretora e CEO da Mind the Trash. Levar sempre ao rumo e garantir que a Mind the trash, o que é hoje, será amanhã e será daqui a 5 anos.

Nós temos outros projetos pensados que não posso revelar e espero que se concretizem, mas só conseguimos com o vosso apoio, pois nós não somos apologistas de empréstimos, portanto, só quando a empresa crescer mais é que vamos ter a possibilidade desse algo, vai ser sempre com o tempo. Uma coisa que também acreditamos é dar tempo ao tempo, há muitas empresas que para começar pedem empréstimos, startups com investidores, e nós nunca quisemos nada disso.

Queremos ter o total controlo do que se passa dentro da empresa e não queremos uma pessoa externa, que só quer dinheiro porque nos emprestou dinheiro e quer reavê-lo. Por isso, só mesmo com o tempo havemos de lá chegar.

 

Se tivesse a oportunidade de propor uma medida legislativa, qual a primeira área de mudança que acha necessária?

Se eu pudesse era a proibição de colocarem no mercado produtos que não têm destino, isto é, que não têm reciclagem. Porque eu acho que é completamente estúpido, e digo mesmo estúpido, como é que nós temos disponível a nível industrial em massa, nas prateleiras de supermercado, e não estou a falar de um produto ou de dois, estou a falar de milhares de produtos, que não tem reciclagem, que não vão ser reciclados, portanto, que vão para o aterro.

Eu, se fosse do governo, só deixaria que empresas pudessem colocar no mercado produtos que podem ser reciclados ou reutilizados e que não criam lixo e é isso que tentamos fazer. Todas as nossas embalagens no final podem ser compostadas, que desaparecem, vão voltar para a terra e assim é que deve ser.

Um exemplo são as escovas de dentes de plástico, que estava tudo a ser enviado para o aterro. Já existem há tantos anos e como é que nunca se falou desta problemática ambiental em que estava tudo a ser enviado para o aterro. É completamente surreal. Seria esta sem dúvida a legislação que eu iria colocar.

 

Tem algum lema de vida que lhe dá força para lutar por esta causa tão nobre?

Não tenho um lema específico. O que normalmente penso para mim própria é que ninguém é melhor do que eu e se os outros conseguem porque é que eu não hei de conseguir. Porque muitas vezes somos desvalorizados, ou temos piores notas, ou somos gozados e muitas vezes achamos que nunca vamos crescer na vida, nunca vamos ter um projeto, que os outros são mais do que nós.

Eu, pelo menos, quando criei a Mind the Trash pensei: se as outras pessoas conseguem ter uma loja online, porque é que eu não hei de conseguir?!

Outro lema que diria que tenho, aqui mais a nível pessoal, não é por eu não ver que as coisas não existem e que não estão a acontecer, e isso para mim faz muito sentido na questão alimentar e em alguns aspetos das alterações climáticas.

Felizmente, eu não vivo numa zona que está em risco de ficar debaixo de água, mas já existem ilhas no Pacífico em que já lidam diariamente com as inundações nas suas casas.

Não diria que é lema, mas são estes dois pensamentos que me fazem seguir em frente e me fazem seguir o que eu acredito.

 

A equipa da UPrise Talent, em particular a do Projeto de Empreendedorismo e Ambiente – Beatriz Fontes, Constança Alves, Mariana Neto e Mariana Martins Pacheco – agradecem à Catarina Matos pelo tempo disponibilizado e o contributo para esta entrevista.

2020-06-17T17:48:04+01:00By |Ambiente|

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