A jovem bióloga que ambiciona mudar o mundo

Raquel Gaião Silva, bióloga de formação, com apenas 25 anos venceu um concurso internacional, promovido pela ONU, com um vídeo sobre a conservação das pradarias marinhas do estuário do Sado.

Raquel, gostaríamos de perceber onde surgiu o teu gosto pela biologia e a área ambiental?

Eu não nasci a querer ser bióloga, sempre fui muito indecisa nos meus gostos, aquilo que eu sempre fiz foi seguir aquilo que me dá prazer o que me levou gradualmente a descobrir o gosto pela biologia. Durante o meu percurso sempre tentei explorar várias áreas, tanto das artes como da comunicação, ciências, música e sempre tentei ser o melhor possível nessas áreas. Depois, comecei a aperceber-me que Biologia era a única coisa que eu não me fartava de estudar, até estudava apenas por curiosidade.

Fui estudar para o Porto, fiz a minha licenciatura de biologia lá, mas na verdade não me decidia na minha vocação dentro da área de Biologia, até que um dia soube que havia uma escola de mergulho cá em Viana (eu sou de Viana do Castelo), e fazer mergulho era uma espécie de sonho que eu já tinha. Foi lá que começou a minha paixão pelo mar. Adorava mesmo ver a bicharada do fundo do mar e percebi que a minha vocação teria algo a ver com a conservação do meio marinho. No final da minha licenciatura quis fazer um mestrado em conservação marinha, que me fez perceber mais sobre o impacto humano no ambiente e a explorar outros habitats que eu não conhecia.

Desenvolvi um maior interesse pelas florestas marinhas que são um dos ecossistemas mais fascinantes, porque fazem o mesmo que as florestas terrestres. São habitat para uma enorme biodiversidade de espécies, captam o dióxido de carbono e produzem oxigénio e, para além disso, ainda captam muito mais carbono do que uma floresta terrestre. Apaixonei-me por este ecossistema. Apercebi-me que a ciência estava muito na sua bolha e que é importante relacionar a comunicação à ciência pois só assim é que o conhecimento das florestas marinhas chegará a mais pessoas, então quis fazer um estágio de comunicação no mestrado. Depois fiz a minha tese de mestrado que foi sobre o impacto das alterações climáticas nas florestas marinhas, que também envolveu muito trabalho de comunicação.

Com a minha tese ganhei um prémio chamado “Young Researchers Award” e foi a partir daí que as pessoas começaram a falar sobre o que era isto das florestas marinhas, agora que já estava nas notícias. Para aproveitar esta onda de sensibilização envolvi-me com a OceanAlive que é uma organização que protege as pradarias marinhas do estuário do Sado, comecei a trabalhar com eles de forma voluntária, ajudá-los nas campanhas de sensibilização para os pescadores.

Um dia vi um concurso de vídeo de sensibilização pela ONU e, como eu gosto muito de fazer vídeos e sou muito interessada pelas questões que se abordam nas Nações Unidas, achei que era uma ótima oportunidade para fazer pela primeira vez um vídeo de sensibilização para um projeto que me era tão querido que era o projeto da OceanAlive. Se ganhasse iria ao COP “Conferência da ONU sobre o clima” e ia aprender muito sobre o acordo de Paris e a parte política daquilo que está a ser feito para o combate às alterações climáticas. Fiz o vídeo que teve muitas visualizações porque já havia muita gente a partilhar nos media e eu ficava cada vez mais feliz porque só o facto de as pessoas conhecerem o vídeo já era uma vitória, e a cereja no topo do bolo seria eu ganhar. E foi assim que aconteceu, ganhei e lá fui eu ao COP, onde aprendi imenso.

 

Como te sentes ao ter o peso de ser embaixadora da juventude da ONU no âmbito das alterações climáticas?

Só uma pequena correção, aquilo que gosto sempre de clarificar é que o prémio não foi ser embaixadora da ONU, mas sim “Youth Reporter” para as Nações Unidas. Mas obviamente que isto me abriu imensas portas, as pessoas começaram a pedir que eu fosse a escolas falar sobre florestas marinhas, sobre a importância de conservar o meio marinho, sobre como é que nós estamos ligados ao mar sem nos apercebermos.

Fazer isto dava me muito prazer e graças ao prémio surgiram-me imensas oportunidades para fazer a diferença e estou muito grata pela visibilidade que me deu. Por exemplo, fui convidada para um movimento chamado LiderA constituído por um grupo de jovens que quer liderar a década do clima, que quer liderar projetos para a ação climática.

Gosto muito de comunicar, gosto muito de passar a mensagem e para mim não é um peso, é um reconhecimento, é uma oportunidade para fazer chegar a mais pessoas, quantas mais pessoas conhecerem o que é isto de florestas marinhas mais contente fico.

 

Tens algum projeto que gostasses de divulgar para além daqueles que já conhecemos?

Para além do LiderA, existe também um projeto financiado pela fundação Calouste Gulbenkian que se chama “LEAP” que é um projeto a que me candidatei e fiquei envolvida, e consiste em diminuir a lacuna que ainda existe entre a ciência e as decisões políticas. O objetivo é que as pessoas selecionadas neste programa recebam formação sobre como informar decisores políticos com base em evidências científicas.

Depois existe outro programa que é o “Blue Bio Value”. É um programa com o qual a ONG “Blue Bio Alliance”, onde eu trabalho, fez parceria. O nosso objetivo é selecionar startups ou empresas muito pequenas que tragam soluções para problemas ambientais relacionados com o mar e que usem os recursos de forma sustentável. Por exemplo, startups que tenham uma ideia de produzir um bioplástico, ou alguém da área da cosmética que faça maquilhagem com base em algas, ou por exemplo alguém que faz purpurinas com microalgas em vez de microplásticos que ficam no ambiente, ou alguém que produza um material para absorver o petróleo derramado no mar. Aquilo que a Blue Bio Value faz é dar formação a estas empresas para que sejam mais bem sucedidas, dá-lhes oportunidades de networking com investidores e potenciais parceiros, e até lhes dá um prémio de 15 mil euros para que testem os seus serviços e usem esse dinheiro para crescer. Agora estou mais ligada a esta parte da economia sustentável, de como é que nós podemos continuar a ter o nosso bem-estar, mas apostando em produtos sustentáveis e produtos que não danifiquem o ambiente.

Há também outros projetos giros, como um financiado pela fundação Ocean Azul que é o “COOL” que quer ligar todas as organizações que limpam praias do lixo marinho, para estarem conectadas para aprenderem umas com as outras, para partilharem experiências, e eu adoro estes projetos de comunicação de interligação, de networking, é muito interessante.

 

Nesta crise que estamos a ultrapassar, as famílias viram-se obrigadas a mudar os seus padrões de consumo, pensas que isto possa ter um grande impacto no estilo de vida das pessoas não só agora como também no futuro?

Eu acho que é sem dúvida um tempo de reflexão, dá para nós pararmos e percebermos como é que a nossa sociedade funciona, como é que nós estamos tão dependentes de certas coisas. Percebemos o quão ligados estamos, por um lado pela rapidez com que o vírus se espalhou, por vivermos num mundo tão globalizado, e por outro lado por conseguirmos continuar a trabalhar, mesmo estando cada um nas suas casas. E se nós conseguimos trabalhar a partir de casa, porque é que não trabalhamos mais vezes? Porque é que precisamos de viajar e de usar transportes para ir a qualquer lado, quando se calhar alguns assuntos podiam ser tratados a partir de casa?

Num mês e meio houve um declínio enorme da poluição porque nós estávamos fechados em casa, mas infelizmente penso que isto não será assim tão significativo se nós voltarmos aos mesmos hábitos que tínhamos. A diferença só vai acontecer se houver uma mudança sistémica, se nós deixarmos de investir em indústrias poluentes, por exemplo. Só com grandes medidas é que nós vamos de facto ver um impacto ambiental. É um bocado perigoso pensar que agora porque os níveis de poluição diminuíram já podemos voltar ao que estávamos a fazer.

 

Que 5 ações sugeres para conseguirmos atingir mais rapidamente os objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU?

Eu diria que em primeiro lugar seria incentivar a participação pública nas tomadas de decisão e abordar a temática de desenvolvimento sustentável no ensino superior. Há muitos bons profissionais e pessoas que saem do ensino superior muito bem qualificadas, mas que depois têm pouca participação pública. Para além disso acho importante que não sejam só os biólogos que devem saber acerca do desenvolvimento sustentável. Engenharia, gestão, e até cursos de artes, de letras devem ser cursos onde se fale de sustentabilidade, porque depois as pessoas nas suas profissões podem fazer a diferença, ou seja, haver mais transversalidade entre os cursos superiores.

A segunda ação seria apostar numa economia verdadeiramente circular, onde os bens produzidos são melhoráveis, reparáveis e que seja possível haver maneira de reciclar os materiais. Hoje em dia nós temos uma maneira de ver as coisas muito linear, nós compramos, usamos e descartamos, depois compramos outra coisa nova, usamos e descartamos, ou seja, ninguém tem o hábito de reparar as coisas. O problema é que as próprias indústrias e as próprias empresas estimulam isso. Se as indústrias fizessem bens mais duradouros, mais resistentes, mesmo que o produto tivesse de ser mais caro, a longo prazo tenho a certeza que iria ser muito mais rentável e as pessoas iam gastar menos dinheiro a comprar novas coisas.

A terceira medida seria desinvestir em atividades que não tenham alinhamento com a sustentabilidade, por exemplo parar de subsidiar indústrias poluentes e haver incentivos às empresas que vão de encontro com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).

A quarta medida seria aumentar as condições de conservação e restauro da natureza. Em Portugal nós temos uma zona económica exclusiva enorme, temos um mar gigantesco, a nossa ZEE é a quarta maior da Europa. Devia haver um maior incentivo à criação que áreas marinhas protegidas e fazer um trabalho bem feito, de restauro e de conservação.

A quinta medida seria adotar um indicador de desenvolvimento económico nacional, complementar ao PIB, que valorize o capital natural. Todos os países estão à procura de ser mais ricos e estão sempre a olhar para o PIB como um indicador de riqueza de um país e na verdade este indicador só mostra o desenvolvimento económico e não mostra o impacto que esse desenvolvimento económico está a ter no ambiente. O que acaba por ser um bocado contraditório, porque um país é mais rico se tiver maior natureza e se tiver mais recursos para utilizar. Fazer esta transição de mentalidade também é importante.

 

O que sentes que ainda tens a melhorar para diminuíres ainda mais a tua pegada ecológica?

Esta para mim é fácil. Eu sinto-me super envergonhada porque ainda não consigo tomar banhos menores de 10 minutos, gastando assim muita água, por isso eu todos os dias faço um esforço para usar menos água durante o dia. No que toca ao resto, eu não tenho automóvel próprio, ando sempre a pé ou de transportes públicos, uso plástico sempre o menos possível. Claro que sei que também devia comer menos carne pois eu não sou vegetariana, mas também acho que as pessoas podem não ser vegetarianas e mesmo assim escolher carnes com uma pegada ecológica menor ou comer menos carne, porque no fundo não precisamos de comer carne todos os dias. Por isso, talvez seriam estas duas medidas: reduzir o tempo do banho e o consumo de carne.

 

O que te imaginas a fazer daqui a 5 anos? Em que projetos?

Eu vou sempre à procura do que me faz feliz e não sou muito de planear o futuro, faço sempre as coisas na corrente com as pessoas e causas que eu gosto. Mas daqui a 5 anos vejo-me a trabalhar em projetos em prol da conservação e sustentabilidade dos recursos marinhos. Também me imagino a exercer funções de gestão de projetos, onde espero vir a ser cada vez melhor, ou de comunicação, sempre usando as minhas skills de bióloga, ou seja, quero continuar a aprender com a biologia, mas também quero ter outras valências de gestão que acho que é muito importante para a minha missão que é conservar o meio marinho e influenciar pessoas a mudar hábitos.

 

Se tivesses a oportunidade de propor uma medida legislativa, qual a primeira área de mudança que achas necessária?

A primeira lei que propunha era tornar proibido dar subsídios a indústrias poluentes, que eu ainda não entendo como isso acontece. Acho mesmo que deveria ser proibido subsidiar indústrias poluentes.

 

Tens algum lema de vida que te dê força para lutar por esta causa tão nobre?

O meu lema é: fazer sempre aquilo que nos apaixona e fazê-lo com toda a energia que podemos ter. Dar sempre o máximo e juntarmo-nos sempre com pessoas que nos motivem a fazê-lo, ou seja, identificar aquilo em que somos menos bons e encontrar pessoas que nos possam ajudar a ser melhores. Sei que não é uma frase feita, mas é aquilo que penso todos os dias. (ri)

 

A equipa da UPrise Talent, em particular a do Projeto de Empreendedorismo e Ambiente – Beatriz Fontes, Constança Alves, Mariana Neto e Mariana Martins Pacheco – agradecem à Raquel pelo tempo disponibilizado e o contributo para esta entrevista.

 

2020-06-15T23:17:50+01:00By |Ambiente|

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