Alexandre Quintanilha tem 73 anos, nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, em Moçambique. Foi professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e, agora, é deputado na Assembleia da República. O físico de renome internacional esteve à conversa com a UPrise Talent. O seu percurso académico, o futuro do sistema de ensino português e a importância da educação não formal foram alguns dos temas que estiveram em cima da mesa.

Há alguns dias atrás estava a conversar com algumas colegas e algumas delas não o conheciam. Como se gostaria de se apresentar?

Em termos de história pessoal, tenho um pai açoriano e uma mãe alemã, de Berlim. Tiveram uma vida difícil, o meu pai foi era professor universitário em Coimbra e foi expulso pelo Salazar. Nos anos seguintes andaram pela Alemanha e França, até que acabaram por se fixar em Moçambique, em Lourenço Marques (atual Maputo). E foi lá que acabei por crescer e por fazer a escola primária e secundária.

Agora entrando um pouco nos meus interesses, eu gostava muito de geometria descritiva, matemática, física e de biologia, pelo que a minha escolha de formação universitária foi um pouco difícil, mas acabei por me decidir por engenharia civil. Chegado ao segundo ano apercebi-me que não era bem aquilo que eu gostava. Era uma turma de cento e tal pessoas, só homens, que gostavam de cerveja, de râguebi, de tudo o que eu não gostava, achei que estava no sítio errado.

Acabei por ir para física, um curso de pouca gente, um bocadinho elitista. Quando acabei o curso, anos mais tarde, decidi doutorar-me em Física Teórica e quando cheguei ao fim desta fase a Biologia começava a ter cada vez mais destaque e eu resolvi que queria mudar para essa área.

Mudei-me para Berkeley, em São Francisco e lá fiquei por 20 anos. Comecei a aprender a matar ratos, a trabalhar com mitocôndrias, toda a parte na área da biofísica. Depois interessei-me pela área das alterações climáticas, muito antes de estar na moda. Foi por volta dessa altura que construí um grande centro em Berkeley, interdisciplinar, em que tinha desde engenheiros, bioquímicos, médicos, advogados, arquitetos, na área do impacto das tecnologias sobre o ambiente.

No final dos anos 80 recebi um convite do professor Corino de Andrade, o homem que descobriu a Doença dos Pezinhos, para vir com a minha equipa para o Porto. Foi muito difícil, nos primeiros 2 anos, sair do sítio, provavelmente mais interessante cientificamente e socialmente no mundo e vir para o Porto, que era uma cidade cinzenta, no início da década de 90, muito pouco internacional. Mas não estou nada arrependido. Estou por detrás disto (i3S, local da entrevista). Agora também estou como deputado, e apesar de também não ter sido fácil também estou a gostar muito.

Dois homens de vermelho e uma mulher

Fonte: Público

 

De Moçambique a África do Sul, passando ainda pelos Estados Unidos e finalmente Portugal, quais foram as experiências que mais o marcaram?

Eu acho que as coisas que mais me marcaram foram as pessoas que eu conheci. E uma das características que eu valorizo mais nessas pessoas é terem apoiado sistematicamente as minhas escolhas, os riscos que eu assumi. Quer dizer, quando eu mudei de áreas, de sítios, de relações, foram essas pessoas que disseram “Faz!”.

Não puseram quaisquer impedimentos ou aquela ideia de “Tem cuidado porque isso pode…” ou “Já tens uma vida confortável porque é que vais experimentar uma coisa nova” e eu acho que, hoje em dia, há muita gente que está muito preocupada em prever aquilo que é o seu futuro.

E, na vossa idade, não são só vocês que estão preocupados mas toda a gente à vossa volta quer que vocês tenham uma carreira muito direitinha, que é para poderem ter um emprego garantido, dinheiro para sobreviver, uma relação e eu acho isso péssimo.

 

“A minha mensagem principal, se quiserem, é que andar à procura de segurança é a pior coisa que alguém pode fazer!”

 

E a nível do ensino, sempre foi um sonho seu ensinar ou, de certa forma, envolver-se no tema Educação?

Não, eu acho que não foi um desígnio. Acho que continuei porque gostava daquilo que estava a fazer. Depois, algo que eu acho muito importante, que é tentar mostrar que é sempre muito perigoso ter certezas e achar que aquilo que é absolutamente óbvio.

Nas ciências, por exemplo na física e na química, isso é mais fácil de combater porque, se a pessoa está convencida de qualquer coisa, é fácil fazer umas experiências e mostrar que está errado. Mas, nas ciências sociais, é mais difícil. As pessoas têm convicções de que há certas formas de estar no mundo e de estar connosco próprios. As pessoas têm medo de arriscar.

O outro objetivo do ensino, para mim, é mostrar que o conhecimento é a coisa mais valiosa e duradoura que transportamos connosco, porque é algo que ninguém nos tira – podem-nos tirar a comida, podem-nos tirar o conforto, mas o conhecimento não nos podem tirar.

Valorizar muito o conhecimento, a capacidade de diálogo, uma certa humildade em relação àquilo que não sabemos e, portanto, ser cuidadoso com as certezas que nós temos e ajudar a catalisar o diálogo entre as pessoas. Acho que esses são os meus desígnios e acho que até faço bem.

Abordando a questão do perigo das certezas, como é que isso funciona na política e na política educativa?

Na política acho que a pessoa tem que transmitir conceitos sobre os quais tem convicções muito fortes, porque tem de transmitir uma certa autoconfiança e capacidade de liderar. E, vê-se isso, hoje em dia, no populismo que está a aparecer nesse mundo fora. São pessoas que aparecem com uma enorme autoconfiança e que vão salvar a situação e vão resolver os problemas todos e a gente vê isso no Trump, vê isso no Bolsonaro, e vê isso um pouco por essa Europa fora.

Mas uma das coisas que eu mais gosto em Portugal é a necessidade de se fazerem compromissos entre partidos. Compromissos com áreas, ideias, umas mais de um lado, outras mais do outro. Acho que isso é muito útil, acho que isso é muito importante. E acho que estamos a viver, de momento, uma situação, em Portugal, muito curiosa.

Como conjuga a sua vida docente com o trabalho parlamentar?

Há uma coisa muito parecida entre a Academia e o Parlamento, é que há muita gente. Eu lembro-me das reuniões do Senado Universitário, em que nós passávamos 5 horas a discutir uma coisinha de nada, gente muito exaltada… e depois chegamos ao fim e espreme aquilo e não sabe muito bem o que sai dali.

O Parlamento às vezes também tem isso e, principalmente, há gente que quer ter muito protagonismo, porque sabe que se não berrar e não insultar também não aparece nas notícias das oito horas da noite. Aquilo que aparece nas notícias é a pessoa a insultar o outro ou a minimizar o outro ou a ridicularizar a ideia do outro e, portanto, às vezes no Parlamento parece que estou no Senado.

Quando a gente vai para uma discussão no Parlamento, a grande maioria dos grupos parlamentares já sabem como é que vão votar. E, portanto, é muito difícil que haja um argumento que apareça que faça mudar de opinião. E isso é muito parecido na academia.

Agora, eu acho que tem havido decisões muito importantes no Parlamento sobre voltar a apostar, o que não é fácil, no ensino público para toda a gente, na saúde pública para toda a gente, nos direitos das pessoas, na possibilidade de voltar a incrementar aquilo que são as pensões, os salários. Mas tenho conhecido gente muito interessante, pessoas por quem eu tenho muito respeito, outros menos.

 

Quais são os problemas e desafios que vê no ensino nos dias de hoje?

Um dos principais problemas é a exaustão dos professores, e a idade média também já é um pouco avançada. Também de cada vez que vem um novo governo, mudam os objetivos, mudam os programas. E isso também e muito cansativo para quem tem que estar a adaptar-se a essas coisas todas. Eu acho que o que está a acontecer esta altura, é aquilo em que eu acredito, quer dizer, eu acredito que o ensino não deve estar dirigido para as notas.

Não deve estar dirigido para aquilo que é ter notas altas. Como se costumava dizer antigamente «marrar para os exames». Eu acho que isso é terrível, porque faz com que as pessoas tenham um único objetivo que é saber aquela matéria, aquela pouca matéria que é necessária, pouco ou muita, não interessa, de tal maneira que depois consiga «vomitar» aquilo da forma mais correta possível.

Eu digo isto e, no entanto, sei que a pressão exterior é enorme, porque se a pessoa não tiver boas notas, depois não pode escolher o curso para onde quer ir, não pode fazer escolhas porque as notas não permitem fazer essas escolhas. Eu acho que as pessoas, se não conseguem ir para aquilo que querem fazer hoje, fazem aquilo mais próximo do que querem e depois, passados 2/3 anos fazem aquilo que efetivamente querem.

A minha vida foi assim, cheia de mudanças e acho que isso me deu uma liberdade e me deu uma autoconfiança que, hoje em dia, as pessoas não têm. As pessoas sentem que há uma grande fragilidade na sociedade em que vivem e que se fizerem as escolhas erradas depois têm o futuro estragado.

Com toda a sua experiência com sistemas educativos estrangeiros, o que acha que poderia ser adaptado de outros países para Portugal?

Quando acabei o 2º ano, de física e matemática, tirei um 1 ano inteiro a fazer Alemão, Francês e Filosofia. Li literatura e cultura alemã, li literatura e cultura francesa e filosofia e foi um ano espantoso, em que, de repente, há um mundo que se abre. Tive sorte, tive professores muito bons. Eu lembro-me que o meu professor de alemão fez com que eu descobrisse a literatura alemã, que eu não conhecia, apesar de ter uma mãe alemã.

Foi muito enriquecedor e eu acho que, e continuo a achar, que em todos os cursos, 30% dos créditos deviam ser noutra área completamente diferente. Esta ideia de que se faz um curso e que, chegando ao fim, tem que se ter aquelas cadeiras todas que vos impingem porque têm de saber aquilo tudo, é um disparate total porque não se sabe tudo.

E, portanto, tirar 30% de créditos numa outra faculdade, se possível, acho que era muito importante introduzir. E não ir para aquelas cadeiras que têm notas altas, aquelas mais fáceis. É ir para aquilo que a pessoa quer aprender, aquilo que a pessoa quer discutir.

Desde que não haja fixação nas notas altas, isso é possível. Eu não tive notas muito altas na universidade, agora tive professores que reconheceram que eu era relativamente esperto e que, portanto, tudo aquilo que quisesse fazer podia fazer. Mas não foi baseado nas notas, aliás eu no liceu era um aluno mau. Eu passava com 10. Agora, as disciplinas que eu gostava, tinha notas extraordinárias, aquelas que não gostava, passava.

E isso não impediu de eu ir para Berkeley dar aulas e construir um centro num dos laboratórios federais americanos mais importantes. E acho que isso, essa liberdade que eu assumi por mim próprio, depois também era reconhecida pelos outros como ter uma certa autoconfiança de poder derrapar aqui, ir para ali, e, hoje, isso é muito valorizado.

Há pouco falou sobre a interdisciplinaridade do ensino e da sua importância. Considera que é fundamental para o grau de preparação dos jovens quando saem das universidades para enfrentarem os problemas do mundo real?

Totalmente! Eu acho que a aceleração da nossa sociedade é de tal ordem, que aquilo vocês aprenderam hoje, daqui a 5 anos, provavelmente está ultrapassado. Os empregos que existem hoje daqui a 5 anos são outros. E, portanto, eu acho que é mais importante nós aprendermos a ser flexíveis e a aprender rapidamente aquilo que precisamos para entrarmos num novo domínio do que ter um conhecimento demasiado focado numa certa direção.

É óbvio, eu também não posso querer aqui defender que as pessoas não tenham conhecimento aprofundado das matérias. Têm que ter um conhecimento aprofundado, mas tem que balançar isso com a ideia de que há um mundo desconhecido que vai atrair novas direções.

Portanto, para mim é mais importante que os jovens saiam do sistema educativo sem ter medo de arriscar mundos novos, não só disciplinas, mas sítios, e por aí fora, sem ter medo de explorar a sua personalidade e perceber se são aquilo que acham que são.

As pessoas têm muitas ideias sobre aquilo são e, às vezes, descobrem que não são bem aquilo que julgavam que eram. Às vezes, são surpresas agradáveis, outras vezes são desagradáveis. Mas a noção de que se está a preparar uma pessoa para um futuro garantido, acho não só que é cada vez menos possível, como acho que é até infantil.

 

Cientista Alexandre Quintanilha no laboratório

Fonte: Público

 

Quais são as suas perspetivas para o ensino universitário do futuro ou como é que gostaria de o ver?

Eu tenho muito pouco jeito para ser profeta (risos). Vocês não se esqueçam que na grande maioria dos países europeus, os chamados “países desenvolvidos”, as pessoas passam 20 anos no sistema educativo. É muito tempo e acho que é um tempo que é importante, porque a gente vive muito das ideias que nos foram apresentadas durante esses 20 anos.

Eu gostaria que o sistema educativo continuasse a fornecer essa multiplicidade de ideias, de formas. Aquilo que a educação nos deve fornecer é a nossa capacidade de perceber que o conhecimento evolui.

Começa com perguntas, há respostas que têm nomes diferentes, os matemáticos chamam-lhes hipóteses e os físicos também. Os sociólogos chamam-lhe narrativas. As religiões chamam-lhes mitos. As outras pessoas chamam-lhes personagens e depois a gente vai testando essas ideias.

Eu acho que a função principal da educação é estimular este processo, porque quando você vai testar as ideias vai confirmar aquilo de que estava convencido ou não confirmar. Então tem que voltar outra vez a fazer perguntas e este é o processo da evolução do conhecimento.

E eu gostava que o sistema educativo nos apetrechasse para fazermos isto da forma mais inteligente, que não é sempre a forma mais lógica, mas é a forma mais inteligente e sensível de pensar nestas coisas.

Qual é a sua opinião em relação à tão apelidada educação não-formal?

Eu acho que é tão importante como a outra, porque a educação formal é o mínimo que a gente pode dar, na minha opinião. A educação formal é aquilo que se pode apresentar a uma pessoa para que essa pessoa sinta que tem as bases, que tem os alicerces para não ter medo de explorar. E explorar é toda a outra educação, explorar não só em relação à profissão, mas em relação às suas relações humanas.

Quer dizer… como é que a gente olha para o mundo e para as pessoas e porque é que gosta de certas pessoas e não gosta de outras, porque é que gostamos de certos ambientes e não de outros porque é que conseguimos estabelecer uma relação com alguém que seja duradoura e com outros não?

Eu tenho uma relação que tem 40 anos e até conhecer o Richard, tive várias relações com raparigas, com rapazes, portanto, eu estava a explorar a minha noção do que era o mundo. E quando conheci esta pessoa, funcionou. Agora, tivemos que trabalhar muito, quer dizer, as relações duradouras exigem que as pessoas façam compromissos. E, portanto, essa aprendizagem é, se calhar, a educação mais importante, aquela que constrói.

Há quem diga que se aprende mais com as asneiras do que com o sucesso. Eu não estou de acordo. Agora, também acho que nós a certa altura começamos a perceber que a nossa vida depende de escolhas que fazemos. Por exemplo, porque é que tu te hás de te rodear de pessoas tóxicas? Devemo-nos rodear de pessoas que ficam felizes com o nosso sucesso.

A coisa que mais me entristece, às vezes, é ver relações humanas em que uma pessoa tem inveja dos sucessos da outra. E a coisa mais importante, quando uma pessoa gosta de outra, é estar feliz com o sucesso do outro e não ter inveja. Mas isso é muito raro, e isso não se aprende na universidade nem na escola. Aprende-se na vivência com os outros. Portanto, para mim, a educação informal, aquilo que a gente aprende, é tão ou mais importante que a formal.

Para finalizar, qual seria a mensagem que gostaria de passar aos estudantes a ler esta entrevista?

Não é minha, isto não é original mas há uma expressão que eu li e que agora estou sempre a pensar nela, que tem haver com alguém que fez a pergunta «Qual é a função principal da educação?», «Para que é que serve a educação?» ou «Para que é que serve o conhecimento, o objetivo final da educação?».

E há um jornalista inglês que disse que a função principal da educação é «transformar espelhos em janelas». E eu acho isto tão bonito!

Aquela ideia de que a gente com o espelho só se vê a si próprio e, portanto, é muito narcisista. E transformar um espelho de maneira que a gente possa ver através dele e passa a ser uma janela para ver o futuro. Esta é a minha mensagem.

Não é original, é de um jornalista que se chama Sydney Harris e eu acho uma mensagem muito bonita, acho muito simbólica, Acho que está cheia de mensagens subjacentes mas que é para mim a função principal do conhecimento e da educação.

 

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2019-03-20T00:18:16+00:00By |Entrevista|

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